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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Se...


Se, ao final desta existência, alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito no conflito, na discórdia…

Se ainda ocultar verdades para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas…

Se restar abatimento e revolta pelo que não consegui possuir, fazer, dizer e mesmo ser…

Se eu retiver um pouco mais do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo…

Se algum ressentimento, algum ferimento impedir-me do imenso alívio
que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda, se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou…

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro sem conseguir vencer a treva e a trave em meu próprio…

Se seguir protestando reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu…

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia para a minha ainda imperiosa angústia…

Se, ainda incapaz para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende…

Se insistir ainda que o mundo silencie para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim…

Se minha fortaleza e segurança são ainda construídas com os materiais grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta, e eu neles ainda acredito…

Se, imprudente e cegamente, continuar desejando adquirir,
Multiplicar, e reter valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz…

Se, ainda presa do grande embuste, insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou…

Se, ao fim de meus dias, continuar sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que, dentro de mim, Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida a todos confia,
E serei um fraco a mais, um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera e que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo e o espaço de Deus.
Terei meramente sido vencido pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.


Poema do Professor Hermógenes
José Hermógenes de Andrade Filho é considerado o pioneiro em medicina holística no Brasil, com mais de 42 anos de prática e ensino de yoga. Pai de 2 filhas, 6 netos e 4 bisnetos. Filósofo, poeta, escritor e terapeuta. Doutor em yogaterapia, título concedido pelo World Development Parliament, da Índia, é o criador do treinamento anti-stress. Faleceu em março de 2015.


Uma das coisas mais lindas e reflexivas  que li na vida...

2 comentários :

  1. Sendo esta reflexão escrita pelo professor José Hermógenes tinha que ser maravilhosa e sublime.
    Um grande abraço, Élys

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